sexta-feira, 1 de junho de 2012

Religião, política e vaidade

O texto de ontem, provocado pelo Ivan Duarte, trouxe uma discussão séria a respeito de religião. Lembrei, então, de que num outro texto, disse que "não existem guerras religiosas, ou guerras políticas, existem guerras econômicas". Querendo dizer que por trás dos conflitos ditos "políticos", ou "religiosos", estão interesses econômicos que usam de ambos para encobrir seus interesses.
Tanto na política, quanto na religião, existem aqueles que se dispõem a servir, colocando-se à disposição da comunidade na busca por qualidade de vida e ampliar o acesso a direitos elementares. Mas, por outro lado, existem os carreiristas, que usam o povo para galgar seus interesses. Estes é que são o problema, porque são eles que acabam deixando as piores marcas na História.
O Cristianismo sabe muito bem disto. Tanto Católicos, quanto Evangélicos (igrejas mais tradicionais na História) fizeram parte de uma das mais tristes chagas da Humanidade: a escravidão (veja o caso do Brasil, com o Catolicismo e os Estados Unidos, com os Evangélicos). Foi um momento em que estado e religião praticamente faziam um mesmo papel.
Assim também as questões políticas ligadas a uma suposta "democracia" (de quem? dos políticos, da economia?) onde se acusou países de práticas de guerra que não haviam acontecido e isto justificou invasões e, especialmente, massacre a populações civis.
A questão, por trás, chama-se "poder". Em qualquer área, aqueles que se deslumbram com o poder passam a querer mais, porque ele é insaciável. Neste caso, as disputas se dão nos bastidores, muito mais no incenso das vaidades do que do discurso dito "democrático" que se faz.
A História tem algumas feridas sérias causadas por estes bandos que se entranham em partidos políticos ou em religiões, mas seus interesses estão bem longe dali. Precisamos conhecer a História, mas também como funciona a entranha do poder (e este mal pode estar bem próximo, na própria família, no trabalho, na vizinhança), para buscar a mudança, ou, ao menos, um convívio consciente e crítico que, se não nos livra do mal, ao menos nos mantenha acima do nível da água.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O homem é bom ou mau por sua religião?

O vereador Ivan Duarte postou no facebook um diálogo de José Saramago: "Perguntaram a Saramago: como podem homens sem Deus, serem bons? Ele respondeu: como podem homens com Deus serem tão maus?"
A provocação levou-me a postar como comentário: "Há algum tempo que eu me questiono a respeito. Embora sendo Católico, Apostólico, creio que o meu R não é de Romano, mas de Relaxado. Creio que todo homem precisa de uma fé. As religiões são a expressão da fé de alguns grupos que se identificam. Um budista dizia que tinha profunda admiração pelo Cristianismo, mas que tinha sérios problemas com os cristãos que ele conhecera. Conheço muitos homens bons, sendo religiosos, assim como conheço muitos homens bons que não têm religião. Assim como conheço maus - em todos os sentidos - em ambos os lados. Nesta, como em outras questões - política, futebol etc. - o importante é que se preze e respeite a liberdade alheia de fazer as próprias opções."
Nas participações que faço, em diversos grupos, defendo que as pessoas alimentem e vivam a própria fé, que, ao menos me parece, torna-se mais fácil, quando há um grupo com o qual me identifico.
Tenho sérios problemas com aqueles que, digo, fazem das religiões um buffet de religiões: buscam em cada uma aquilo que lhes interessa, consequentemente, não mantêm identidade com nenhuma. Não são honestos nem consigo mesmo, sequer com as religiões.
Não confundir com o sincretismo religioso, que isto é outra história, que merece um capítulo à parte.
Por conveniência e para não sentirem-se co-responsáveis com as religiões, buscam o batismo numa, o casamento noutra e, em caso de extrema unção, vão em busca de uma terceira que esteja mais por perto.
 Meu pai dizia que o maior problema está naqueles que se "convertem" e acham que somente eles têm o caminho da verdade. Isto vale para a religião, assim como para quem deixou de fumar, beber, optou por um partido político etc. Ficam fanáticos. São os piores, pois se tornam crentes chatos.
Não é o caso. Homens são bons ou maus por uma série de fatores, inclusive religiosos. Querer atribuir à religião a capacidade de direcionar a vida de todas as pessoas é uma cegueira que se percebe apenas olhando para o número daqueles que verdadeiramente frequentam os templos: o número não é suficiente para influenciar os destinos da humanidade. Agora, se incluirmos os políticos, administradores, educadores etc., pode-se pensar de uma forma diferente.

domingo, 27 de maio de 2012

Um inquietante momento de silêncio


Artigo: um de meus artigos que teve muita reflexão, especialmente entre religiosos.
O profissional à minha frente parecia carregar o peso da humanidade. No entanto, tinha um problema bastante comum: cansara do discurso para o qual fora treinado. E cada vez que falava, sentia-se vazio, como quem está enganando o público para o qual está falando. E enganando muito mal, porque incapaz de convencer-se, consequentemente, de convencê-lo.
Nos cursos e palestras que realizo, em Comunicação, acaba-se chegando a uma triste constatação: estamos empobrecendo o elemento mais importante, fundamental, do processo comunicativo: a palavra.
Repetida burocraticamente, a palavra passa a ser, apenas, dita à exaustão, desgastando seu sentido e tornando-se muito próxima de um mero ato mecânico. E este não consegue fazer com que se “des cubra” (no sentido de retirar o véu que a preserva) e se possa saborear plenamente o seu sentido. Para um determinado tipo de situação, a “fórmula” já está pronta, é chavão, e vem envolta em algum sorriso, cara compungida ou feição que nada demonstra, esperando que resulte num efeito previamente estabelecido.
Vejo que isto acontece com alguma frequência entre aqueles que precisam utilizar o discurso religioso. A pura repetição de um ato não o transforma em rito, mas atende apenas a um suposto “tratado” com Deus: a “soma” de determinadas ações deveria resultar no “produto” esperado. Este é um ledo engano: o rito tem seu valor em si. Não precisa de pregações alongadas, entediantes e, muitas vezes, desestruturadas, juntando elementos que vêm à cabeça do pregador, que alonga seu discurso por um único motivo: como não sabe por onde iniciou e por onde andou, também não sabe como terminar.
Triste e maltrapilho desejo! Em muitos momentos, acredito ser necessário “rezar pelo Espírito Santo” e não “rezar ao Espírito Santo”. Explico: a mesma crise de identidade no encontro do sentido das palavras faz com que se abuse do ato de pedir ao Espírito Santo para que faça uso de seus atributos. Um dos principais: a inspiração. Coitado do Espírito Santo! Um “burocrata do Senhor” que não consegue fazer ao menos a sua tarefa básica, que é a de preparar-se para a liderança, não deveria ter o direito de chegar a esta instância.
Então, qual é a solução. Para quem crê, é simples: a oração. E para quem não crê? Também é simples: o silêncio. O silêncio precisa antecipar a palavra para poder dar-lhe substância e sentido. É assim que se evita encorpar aqueles vazios que vão ficando quando a repetição se torna rotina; o improviso, a regra; e a manipulação dos sentidos o caminho mais fácil para o fim de uma carreira de comunicador, seja ele religioso ou não.
Em cada uma das atividades, torna-se fundamental incorporar espaços de sanidade mental. São aqueles momentos em que podemos nos recolher ao silêncio e ordenar nossos conhecimentos, sentimentos e, mesmo, rezar. O que mais impressiona é que somos capazes de elencar dezenas de argumentos para não encontrarmos estes momentos. Eles parecem supérfluos diante de rotinas preestabelecidas em que somos tragados pela avalanche de ações que são “urgentemente necessárias”, em nosso grupo familiar, atividade profissional, educativa ou, até mesmo, religioso.
Paciência. Conheço profissionais que enfrentaram a crise diante da palavra e entraram em desespero. Até silenciar e abrir o coração para a reflexão, a meditação e a oração, é um longo caminho, para o qual não existem fórmulas prontas. Cada qual tem que encontrar o seu. Mas ele precisa ser iniciado: com um inquietante momento de silêncio.

sábado, 26 de maio de 2012

Uma alameda de acácias


Dos meus contos escondidos no baú de um livro com publicação restrita.
Era o início da Primavera. A marca certa de que as árvores estavam voltando a ter suas folhas, de que voltavam as flores, tempo em que os pássaros começavam a cantar, mesmo antes do nascer do sol.
Mas, o que mais marcava para o Mestre, na chegada da estação das flores, era o cheiro que exalava de uma árvore simples e considerada de pouca resistência: a Acácia.
Deixou o Mosteiro e seguiu por uma trilha que o levaria até o alto do monte. Era o seu lugar preferido para ver o sol nascer. Mas também era o único caminho que formava uma alameda de acácias. O suave perfume, misturado com a musicalidade das abelhas que madrugavam para não serem atingidas pelo sol mais forte, tinham o dom de relaxá-lo, deixar seu espírito aberto e disponível para o que pudesse acontecer durante o dia.
  Mal havia sentado, quando ouviu passos que vinham pelo mesmo caminho que percorrera. O Aprendiz. Pensou em mostrar-se zangado, mas não conseguia.
- O senhor vai ficar brabo comigo, se eu ficar aqui?
Não podia mentir.
- Até pensei que sim, mas não vou, não. Mas como me encontrou?
- Segui-lo é relativamente fácil, Mestre.
  Também tinha o seu ataque de petulância, àquela hora da manhã, o pequeno Aprendiz.
- Então, explique-me.
- Acontece que existem duas formas do senhor iniciar seu dia.
  Aguardou uma explicação que não veio. Suspirou fundo e teve que perguntar:
- Então?
- Ah, sim. Quando o senhor vai direto para as preces, tudo é feito às pressas. Ouço-o saindo de sua cela, batendo tudo. É certeza de que o dia também vai passar assim.
- E a outra forma?
- É quando o senhor vem aqui. Sempre agradeço ao Eterno Descanso quando vejo que sai furtivo e se encaminha para o monte. O dia, então, será sereno, tranquilo, a sua energia é contagiosa e faz com que tudo se torne mais fácil.
  Estavam começando a surgir os primeiros raios de sol. Todas as coisas já haviam recuperado suas formas e o azul começava a ser preenchido por esgares do suave vermelho da manhã.
  Mais do que se tornar previsível, estava precisando deste alimento para continuar com o trabalho do Mosteiro.
- E eu vou ajudá-lo, Mestre.
  Já não se assombrava sabendo que ele lia seus pensamentos. Afagou-lhe a cabeça, com o cabelo encaracolado e rebelde a fazerem moldura para aqueles olhos que retribuíam seu carinho com amor, muito amor. O amor de quem também precisava compartilhar do sol nascer, do perfume das acácias e de cada momento de sua vida. Foi então que lhe veio à memória a ocasião em que conhecera o tamanho do mar.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Entre a tamanca e o chinelo

Sou da geração que fez a transposição entre o uso do tamanco - normalmente feito de madeira e couro - e o chinelo de dedo. Neste meio tempo, muita coisa aconteceu, para o bem e para o mal. Lembro de um amigo que contava terem sido assaltados em casa e que ninguém ouviu nada porque o ladrão usava chinelos de dedo, então uma novidade, não sendo ouvido.
Não creio que alguém vá tomar esta transformação como símbolo das mudanças que aconteceram nestas últimas décadas, desde a tecnologia até os costumes. Poderíamos lembrar outras: das novelas de rádio para as novelas de televisão; da máquina de escrever para o computador; das viagens apenas sonhadas, para aquelas que hoje se realizam com certa facilidade.
E, me parece, o que mudou foi isto: a facilidade de acesso a certas coisas que, no passado, eram somente acarinhadas como projetos próximos do inexequível.
A questão é a qualidade que se dá ao processo. Vejamos o caso da Universidade. Hoje, temos "pechinchas" que saem de pouco mais do que cem reais para um curso de terceiro grau. A pergunta que não quer calar é: prepara para quê? Em alguns casos, acaba sendo apenas a satisfação de ter um canudo universitário.
Entre a tamanca e o chinelo, ainda temos um longo caminho a percorrer, especialmente no processo de educação, que é um ato solidário entre família, educadores e sociedade. Sendo verdade que estamos melhorando, enquanto Brasil, nos índices econômicos, o próximo passo tem que ser qualificar as pessoas para que, mais do que consumir, possam se realizar no convívio do dia a dia, superando a pequenez de olhar apenas a volta do próprio umbigo e se voltar para índices que nos satisfaçam em áreas como a saúde, segurança, moradia, cultura, diversão...

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Racionamento ou incompetência?

Comentei, ontem, no rádio e na televisão, o despropósito que é Pelotas ter racionamento de água. O uso racional da mesma é outra coisa (não desperdiçar o líquido precioso). Explicava: o município ao sul do Rio Grande do Sul está cercado por água potencialmente tratável (embora, muitas vezes, poluídas).
De um lado, a Lagoa dos Patos, na maior parte das vezes, com água doce; ao sul, O Canal São Gonçalo, com acesso à Lagoa Mirim; do outro lado, a barragem do Santa Bárbara (fonte principal, além de outras duas barragens menores), assim como o Arroio Pelotas.
O potencial do São Gonçalo é tão grande que o município de Rio Grande já se antecipou e conseguiu a canalização para receber e tratar água para sua área urbana. Para Pelotas, há um projeto de uma barragem feita naquele canal e que também resolveria todos os nossos problemas.
Mas a questão não é esta: a promessa da obra já existe há muitos anos, décadas. Mas, na prática, a incapacidade de articulação política de nossas lideranças faz com que o tão perto, muitas vezes, se torne longe. Governos que não se identificam, medo de que outros assumam a "paternidade", incapacidade nossa - cidadãos - faz vermos estas melhorias em outras áreas do Estado, em detrimento das nossas.
Claro que, neste momento de estiagem, o racionamento é necessário. Mas ele demonstra a incapacidade técnica de nossos governantes, atuais e passados, em pensar não apenas o presente, mas fazer previsões do que se dará a médio e longo prazo. As eleições de outubro podem delinear um novo quadro: mas precisamos construir candidaturas já agora. Votar não é apenas escolher quando estivermos diante da urna. É pensar, julgar, conversar, aceitar ou não propostas viáveis e que atendam às mais elementares necessidades de infraestrutura, serviços básicos e a satisfação das necessidades mais elementares que compete ao poder público providenciar.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Brasileiro: cara de palhaço, jeito de palhaço...

Como todo o brasileiro que se interessa por saber como é gasto o meu(nosso) dinheiro no serviço público assisti entre indignado e divertido a farsa em que se transformou a CPI do Cachoeira, na transmissão ao vivo da representação pretensamente séria da reunião em que senadores e deputados deveriam ter ouvido o próprio Cachoeira.
Orientado por seus advogados - um deles ex ministro da Justiça! - declarou que, por direito legal, não tinha nada a declarar. A reunião durou, mesmo assim, mais de duas horas, com raros momentos de serventia, a não ser quando uma senadora pediu a suspensão dos trabalhos, sentindo que o que se passava era uma "palhaçada". Ou quando alguém disse que as perguntas feitas e não respondidas alimentavam o arsenal da defesa.
As negociações para blindar aliados - de praticamente todos os partidos - beira ao deboche. Somente não entram nestas águas turvas quem ainda não exerce o poder. De resto, não escapa nenhum!
Explicações são dadas para coisas que beiram o imoral, embora com o verniz de legal. O próprio ex-ministro que hoje advoga - com polpudo pagamento - diz que é um direito seu aceitar um cliente. Mal comparando, foi dito que seria como se um padre abrisse um bordel onde trabalhassem as mulheres de "vida fácil" (que de fácil não tem nada!), com a explicação de que fica mais fácil de cuidar de suas almas!
Infelizmente setores de muitas profissões beiram a prostituição. No Brasil, os inúmeros benefícios concedidos nos dão a sensação de que sentimos uma certa coceira no nariz: um tampão vermelho nos deixa com a cara de palhaço, jeito de palhaço... E a sensação de que, se a sociedade não se mobilizar, tudo vai acabar em piza.